O SEGREDO ERA ELA

O SEGREDO ERA ELA

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Quando minha mãe morreu, me sentei no chão da cozinha e chorei. Olhando suas panelas reluzentes e me questionando por que ainda estavam ali intactas, enquanto ela se foi. E toda uma história passou pela minha mente. Ela era tão cuidadosa em tudo que fazia: colocava um talher na porta do forno enquanto assava seu pudim de claras, o feijão para cozinhar já refogadinho sem sal (e refogava de novo), gotinhas de limão pro arroz ficar branquinho, e como seu pão crescia na receita feita de primeira, até na costura os avessos eram perfeitos. Não usava nenhum tempero artificial ou industrializado, era tudo natural, picadinho. No Natal sempre me lembro de suas falas, sobre manter as tradições. Eu mesma não entendia o porquê de tantos cravos, fios de ovos, mel, pêssegos e passas, mas a ajudava desde quando precisava subir nos bancos da cozinha para alcançar a pia. Tantos encantos, aromas, técnicas, livros do açúcar união, da dona benta, da walitta, receitinhas escritas em papéis avulsos já amarelados pelo tempo, passadas para todas as tias, como tesouros de família. Meu pai, hábil com as madeiras, serrava as tábuas, que seriam envoltas em papel alumínio, para colocar os bolos de aniversário com recheios de ameixa e baba de moça. Minha tia trazia empadinhas de queijo e balinhas de feliz aniversário da Patrone, uma loja tradicional de Petropolis/RJ. Havia lindas mensagens envolvendo essa balinha de doce de leite, com formato de travesseirinho. O cheiro de tudo sendo feito na hora, do beijinho, do olho-de-sogra, das mini-cocadinhas e do cajuzinho sendo enrolados, da borracha das bolas de encher e das velinhas rosas queimando e aguardando meu desejo ser feito ainda invadem minha memória. Às vezes me arrisco em alguma receita e, por mais que eu reze e espere na porta do forno, como quem aguarda uma visita querida, nem sempre a fica igual. Mas como assim? Não era fermento biológico fresco e mãos na temperatura certa para sovar a massa? Por que a mágica não aconteceu? Porque, meu caros, o segredo era ela.

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